sábado, 7 de janeiro de 2017

A Virgem e o Fotógrafo (Carlo Mossy, 1991)



Na virada dos anos 70 para os 80, muito impulsionada pelo processo de abertura política que só viria a se realizar plenamente quase uma década mais tarde, a produção musical do país enfatizava um modus vivendi hedonista que tinha na representação do espaço praieiro um dos seus emblemas mais reverenciados. As apologias pendulavam entre praia, sexo, corpos bonitos, amores de verão, etc. Mas diferentemente do cancioneiro da época, o cinema ainda carregava sombras que o relegavam a um certo estatuto de marginalidade, cenário que só se modificaria com obras como “Menino do Rio” (1981), filme que demarcaria na esfera visual aquele mesmo pendor solar pautado pela música já há uns três anos. 

No entanto, a produção pornográfica, extremamente anacrônica diante dessa mudança de paradigmas, mantinha sua aura de isolacionismo sorumbático atrelado a narrativas pautadas na deformidade. Filmes como “Alucinações sexuais de um macaco”, “Hospital dos prazeres”, “ A galinha do rabo de ouro”, “Bacanal adolescente”, “Seduzida por um cavalo”, “O estuprador infernal”, etc., representavam para o cinema aquilo que Augusto dos Anjos um dia conceituou poeticamente sobre o Homem daquela virada de século (XIX-XX) em seu “O lázaro da pátria”: “ Filho podre de antigos Goitacazes/ onde quer que a cabeça ponha/ deixa rastros e circunferências de peçonha/ marcas de úlceras e antrazes”. Nada mais próximo daquele panorama de figuras anômalas repletas de desejos bizarros, ou participantes de situações que ultrapassavam o ridículo em sua desfiguração: sexo com galinhas, cavalos ou macacos, idosos trepando, crianças se masturbando, enfermeiras dedando pacientes – para o gozo desses –, homens sem pau, estupros, incesto, etc. A concepção do sexo como prática compatível com a postura higienizadora, pop e solar dos anos 80 estava longe da proposta dessas produções, ainda submetidas a uma (inconsciente) prerrogativa de escuridão marginal da década anterior. Não havia saúde nem jovialidade no sexo exposto nesses filmes. O ser humano ali se assemelhava a uma tintura expressionista que, de tão deformada, eclipsava qualquer lampejo de salubridade psíquica, tanto de seus personagens quanto de seu público alvo (inevitavelmente associado a cachaceiros, doentes, vagabundos e gente muito, muito feia). Isso já em meados dos saudáveis anos 80. Tardiamente, no início da década seguinte, esse panorama mudaria.

“A virgem e o fotógrafo” narra as aventuras sexuais de um fotógrafo (o prolífico ator pornô Rony Ramos, único remanescente do elenco a emanar aquela obsoleta aura de galã setentista, à moda Mário Gomes) que convida três modelos para uma orgia em um apartamento de frente à praia. Uma delas, ainda virgem, será devidamente “introduzida” naquele ambiente por uma de suas colegas, uma jovem morena com marca de biquíni que é o antípoda das atrizes pornôs setentistas/ oitentistas. Sua buceta é lisa, diferentemente das de suas antecessoras, carregadas em pentelhos que ecoavam a epistemologia hippie, sem a necessária e padronizada semântica da higiene e da saúde que os anos 80 tanto louvaram em suas músicas e séries de tevê (lembremos da canção “Saúde”, de Rita Lee, do seriado “Armação Ilimitada”, dos vídeos da Jane Fonda, etc.). Seus seios tem a firmeza de alguém que malha e não bebe, e suas marquinhas de biquíni pressupõem um cotidiano praieiro.  O diálogo entre ambas seguido da inevitável cena de lesbianismo é de um realismo até então poucas vezes filmado. Nitidamente as duas atrizes transam, sem aquela inconveniente plasticidade amadora de outrora – coisas como trilha pianística à la Richard Clayderman, closes demorados nos rostos,  planos unidimensionais, etc – interferindo na fruição da cena. O tesão irradiado pelas duas é de uma veracidade tal, que em um momento, a virgem chega a dar um pequeno grito de dor diante da voracidade do sexo oral feito por sua amiga – ao que esta imediatamente se desculpa aos beijos. 

Infelizmente não se pode dizer o mesmo da compleição de Rony. O corpo excessivamente cabeludo, a cara de bom moço de novela das seis e o pau pequeno não agregam novidade alguma a uma obra que se quer jovem, viril, carregada de testosterona. Em 1979, não faria feio em alguma pornochanchada de fundo de quintal. É até discrepante vê-lo contracenando com uma loiraça de cabelo curto – essa sim, uniforme com a proposta de remodelagem do filme -, quase como num conflito de épocas se enredando.

As cenas de sexo protagonizadas por Rony na sacada de um prédio são esteticamente remanescentes da síndrome de videoclipagem mtvesca que assolou todos os formatos do audiovisual naquele começo de década. Mas, a despeito de soarem genéricas, atualizam a linguagem do pornô a um modelo mais compatível com os propósitos do espectador, que certamente não ia ao cinema (antes que o formato migrasse definitivamente para o mercado de home) para ver uma galinha sendo estuprada. A decupagem modernosa dessas cenas mantém um diálogo irresistível com as canções “It’s only love”, do Simply Red e “Voyage Voyage”, do Desireless, que transpassam a obra com aquele tardio vigor oitentista que tanta falta fazia ao gênero. O tesão dessa vez é emanado por todas as arestas, sem interferências de incongruências que mais solapavam o ânimo do espectador do que o instigavam.

Contraditoriamente, o diretor Carlo Mossy (pseudônimo de Giselle H.) possuía uma vasta experiência na seara da pornochanchada, gênero que pavimentou o caminho para chegada do pornô sombrio realizado entre 70 e 80 e tantos. “A virgem e o fotógrafo” traça um caminho completamente adverso, coerente com a via hedonista sobre a qual o mundo oitentista transitava. Seu legado pode ser observado hoje em dia tanto nas mega-produções da Butt Sellers, repleta de mulheres praieiras, raspadas e rabudas, quanto nos amadores produzidos por casais à beira mar, ao som de David Guetta.

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